Por Gabriel Gomes
O drama retratado na minissérie de ficção “Adolescência”, da Netflix, que é sucesso no Brasil, é realidade na vida de muitas crianças e jovens no país. Um relatório da InHope, associação internacional que reúne 55 canais de denúncias de crimes na internet, divulgado na manhã desta quinta-feira (3), aponta a SaferNet, do Brasil, como o quinto canal de ajuda com maior detecção de páginas contendo material de abuso sexual de crianças (CSAM) no ano passado.
A série “Adolescência” aborda temas como a violência sexual, o machismo, o bullying, as relações familiares, saúde mental, misoginia e masculinidade tóxica, tudo isso potencializado pela superexposição de adolescentes às plataformas digitais. A trama da Netflix conta a história de Jamie Miller, um garoto de 13 anos acusado do assassinato de uma colega de classe.
Drama retratado na minissérie “Adolescência”, da Netflix, que é sucesso no Brasil, é realidade na vida de muitas crianças e jovens no país.
Denúncias de abuso infantil na internet no Brasil
O Brasil, em 2024, só aparece atrás de Bulgária, Reino Unido, Holanda e Alemanha no relatório. Ao todo, a SaferNet Brasil teve 52.999 páginas diferentes entre si denunciadas. Dessas, 10.823 foram encaminhadas para hotlines e autoridades de outros países, por indicar que as vítimas de abuso sexual infantil eram estrangeiras ou os crimes apontados na denúncia não ocorreram no Brasil.
Outras 38.051 páginas com indícios de abuso sexual infantil foram encaminhadas aos hotlines (canais de denúncia) com o auxílio de ferramentas de deteção automatizada e pró-ativa
Em 2024, a rede de 55 hotlines, presente em 51 países, detectou a existência de 1.155 páginas diferentes hospedadas no Brasil, o que equivale a 0,05% de todas as páginas contendo material de abuso sexual infantil detectadas no mundo. Essas páginas foram recebidas e analisadas pelo Núcleo Técnico de Combate aos Crimes Cibernéticos do Ministério Público Federal (MPF) e autuadas para investigação.
“Os avanços tecnológicos têm aumentado a complexidade de detecção e o volume de imagens de abuso sexual infantil na web. A Internet não tem fronteiras, o que torna a cooperação internacional nessa área absolutamente imprescindível”, afirma Thiago Tavares, presidente da SaferNet Brasil.
Brasil só aparece atrás de Bulgária, Reino Unido, Holanda e Alemanha, segundo relatório da InHope. (Foto: Marcelo Casal Jr/ Agência Brasil)
Devido ao caráter mundial da internet, cerca de 98% de todos os conteúdos ilegais denunciados à SaferNet no Brasil estão hospedados em servidores e aplicações de internet no exterior.
“Devemos lembrar sempre que esses conteúdos são prova material de estupros ocorridos no mundo ´real´e quem compra ou baixa esses arquivos, além de estar cometendo crime, apoia e financia criminosos. Embora o Brasil não seja um grande hospedeiro, é um país produtor e grande consumidor de imagens de abuso sexual, inclusive com uso de Inteligência Artificial Generativa. A maior parte desse conteúdo está hospedada em sites e servidores no exterior”, complementa Thiago Tavares.
Os especialistas alertam, porém, que a hospedagem é apenas uma parte do quadro mais amplo quando se trata da criação, distribuição e consumo de material de abuso sexual infantil. Os relatórios informam onde está localizada a maior concentração de servidores contendo CSAM. A produção desse tipo de conteúdo, porém, pode ocorrer em qualquer lugar.
O relatório anual da InHope foi divulgado numa conferência online que, na manhã desta quinta-feira (3), em Amsterdã, na Holanda, onde fica a sede da associação, que é financiada pela Comissão Europeia.
SaferNet Brasil
A SaferNet Brasil é uma organização de defesa dos direitos humanos na internet, 100% brasileira, e desde 2006 trabalha em parceria com o Ministério Público Federal no recebimento e processamento de denúncias de crimes e violações a Direitos Humanos na Internet.
A Safernet mantém a Central Nacional de Denúncias, conveniada ao Ministério Público Federal e o Canal de Ajuda, o Helpline, para vítimas de violência e outros problemas online.
Como evitar que redes sociais causem dramas retratados na série?
O ICL Notícias conversou com a psicóloga e psicanalista Juliana Cunha, que é diretora de projetos especiais na SaferNet Brasil, instituição que defende e promove os direitos humanos na internet. Juliana abordou os principais problemas e armadilhas virtuais retratados na minissérie. A psicóloga também deu dicas de como tentar evitar os efeitos dramáticos do excesso de uso das redes. Clique aqui para ler a matéria.
“Na medida em que um produto como esse ( série Adolescência) vai para a mesa da família, para a refeição, as pessoas vão falar sobre isso, fica muito popular e acaba entrando nos lares das famílias brasileiras. E isso é importante, muitos pais ainda desconhecem e ignoram esse problema”, disse Juliana.
Fonte: ICL Notícias